Depois de passada uma semana das eleições impõem-se algumas reflexões acerca dos resultados que surpreenderam alguns, eu incluído nesse grupo, e outros nem por isso. Indiferente ninguém ficou, nem por cá nem no panorama nacional. Se bem que lá por terras do rectângulo alguns assobiaram para o lado e outros colheram as canas, mas lá chegaremos. A surpresa maior foi para mim o extremar da bipolarização. Numa situação de crise financeira e descontentamento generalizado seria de esperar uma penalização dos partidos do arco governativo. Os Açorianos assim não julgaram, mas também se calhar a verdadeira crise ainda não chegou aos Açores.
Primeiro, os primeiros: O Dr. Vasco Cordeiro, Carlos César e o PS Açores. Fizeram uma campanha perfeita, uma pré campanha ainda mais perfeita. É absolutamente evidente que o último mandato não foi brilhante e muito menos foi o desempenho do ex secretário regional da economia. No entanto, a capacidade organizativa e mobilizadora de Carlos César e do PS Açores foi colocada no terreno em todo o seu fulgor e funcionou como um relógio. A estratégia idealizada para eleger o deputado escolhido pela liderança do partido foi exemplarmente desdobrada sem falhas e produzindo resultados avassaladores. Eu diria que nada correu mal. O momento escolhido para a saída do candidato do governo foi o certo e atempado. Toda a estratégia assentou numa mensagem de clara aposta na continuidade, no entanto com uma cara diferente. A opção de ausência de ruptura foi muito bem recebida pelo eleitorado. Até mesmo nas promessas do «Prometório» o candidato esteve bem. Prometeu algumas coisas mais ou menos descabidas, no entanto não se comprometeu demasiado nem seguiu pelos caminhos delirantes que outros optaram por trilhar com os resultados que são conhecidos. Aliás, revendo a lista de promessas percebe-se bem um padrão: são todas possíveis de ser cumpridas, tão possíveis que muitas já o deveriam ter sido, e as que não são facilmente se descartará a culpa para os senhores da república. Menos, claro, a da brucelose...
Mas o povo optou claramente pelo projecto do PS Açores e acorreu em maior número às urnas do que em 2008. Por isso, em termo de legitimidade estamos conversados. Saem reforçados e com todas as condições de estabilidade para governar durante todo o mandato sem qualquer sobressalto, ou assim se espera. Resta a dúvida se seremos governados à distância por um presidente do partido, ou se os dois se fundirão em devida atura e o Dr. Vasco Cordeiro assumirá finalmente a liderança.
O aproveitamento po parte do líder do partido nacional, tentando colher dividendos de uma vitória que não foi sua e que para a qual contribuiu zero, foi infantil no mínimo. Carlos César pode e deve assumir uma candidatura à liderança do PS Nacional. Pode ter muitos defeitos, mas está incomparavelmente mais bem preparado para governar Portugal.
Na verdade a campanha do PS Açores nem carecia de tal excelência, já que pelo lado do PSD as coisas correram de modo absolutamente contrário. E antes de falar sobre a oposição, tenho de dizer que não concordo de todo com que a responsabilidade da derrota da Dra. Berta Cabral e do PSD deva ser atribuída principalmente às desventuras do governo da coligação na república. Admito que possa ter sido um dos factores em causa, mas longe de ser o mais decisivo. A Dra. Berta Cabral perde exactamente onde o PS foi absolutamente brilhante: Na capacidade organizativa e mobilizadora de dentro para fora do partido e numa estratégia que foi mal idealizada e pior desdobrada. Ora o que se espera de um projecto de alternativa é que seja diferente. Essa diferenciação nunca vingou ao longo da campanha e em muitos momento até se reforçou o oposto. A comunicação falhou totalmente. Sendo o expoente máximo do descalabro o episódio dos outdoors iguais. Por outro lado, a fixação nos “independentes”, como estrelas dentro das listas a deputados, embora tivesse sido também opção do PS, penaliza quem necessita mais de mobilizar o partido. Não trouxeram nenhuma mais valia eleitoral.
No «Prometório» o que prometeu deixou transparecer que esta opção de comunicação era apenas isso mesmo, um conjunto de promessas. Seguiu a mesma linha da campanha do Dr. Pedro Passos Coelho, sabendo ou não, que dificilmente iria cumprir metade do que prometia. O Povo não deve ser menosprezado em relação ao seu discernimento do que é credível ou não. Não se elege ninguém apenas pelas promessas que faz, ou pelo menos já não é assim. Se assim fosse o PSD teria tido maioria absoluta. Para que se ganhem dividendos com promessas é necessário que se acredite. Depois da campanha do Dr. Pedro Passos Coelho apoiado pela Dra. Berta Cabral, alguém iria acreditar? Parece-me que a via de não prometer nada teria tido melhores resultados. Nunca o saberemos.
Juntemos então as trapalhadas e ziguezagues do Governo da República em pleno período pré eleitoral que não ajudou em nada. Eu diria que o PSD nacional fez quase tudo para que a Dra. Berta Cabral perdesse. Não por opção, mas para tal muito contou a inaptidão para governar do nosso Primeiro-Ministro. Para governar o pais e o partido diga-se. Mas isso são contas de outro rosário.
Sai o PSD Açores derrotado, mas também será a oportunidade para uma verdadeira renovação interna. Não se demitiu a presidente, mas suponho que a sua liderança morreu no dia das eleições como parece se confirmar agora.
Em terceiro, os terceiros. O Dr. Artur Lima teve exactamente a lição que merecia. Traçou uma estratégia que eu chamaria de “todos contra São Miguel”. Fez contas, assumiu que manteria todos os deputados e que se não elegesse o cabeça de lista por São Miguel, certamente elegeria um deputado pelo círculo de compensação. Por outro lado, bastaria-lhe subir ligeiramente na Terceira para ganhar mais um deputado. Acreditou que não haveria maioria absoluta e que nesse cenário com o número de deputados que elegeria seria governo. Levou essa estratégia ao extremo de não colocar em segundo lugar da lista do círculo de compensação, a seguir a si, o cabeça de lista pelo círculo de São Miguel o que garantia a eleição deste. Bem, assumiu mal, resultados à vista. Conseguiu eliminar a potencial concorrência interna do Dr. Pedro Medina, perdendo-se um deputado competente na ALRA. Mas terá conseguido mesmo? Ou terá a esmagadora derrota afectado irreversivelmente o presidente do CDS-PP Açores? Veremos qual a vitalidade do partido na Região. A liderança será disputada e antevê-se o retorno a São Miguel.
O Bloco de Esquerda segue-se no rol dos derrotados da noite de 14 de Outubro. Perde um deputado muito por culpa do desvanecer da imagem de esquerda renovada. A Dra. Zuraida Soares é amplamente reconhecida como uma parlamentar exemplar e dedicada defensora de uns Açores mais justos e mais “sociais”. Não merecia esta derrota. Aqui, uma vez mais foi a máquina esmagadora do aparelho partidário do PS Açores que levou a melhor roubando eleitores tornando o bloco mais pequeno na Região.
Foi novamente por um triz que o Dr. Anibal Pires se elegeu. O PCP tem o seu eleitorado e este flutua muito pouco. Na campanha o candidato foi exactamente igual a si próprio e totalmente coerente. Consegue um resultado muito semelhante a 2008. Pouco mais há a dizer.
A Plataforma da Cidadania consegue um resultado muito meritório. Sou suspeito claro, mas ficar a menos de 300 votos da CDU em São Miguel e à frente de todos os “pequenos”, só pode ser um bom resultado. O projecto nasce para dar voz a todos os que não se revêem no panorama partidário, mas que se recusam a deixar de intervir. Essencialmente um movimento de uma nova e diferente geração. Vi motivação, vi competência e esperança durante todo o percurso. O movimento padeceu apenas da inexperiência e juventude do mesmo. No entanto, a mobilização conseguida impressionou. Se existem vencedores além do PS Açores, são os jovens que deram corpo à mensagem da Plataforma de Cidadania. O resultado na Ribeira Grande é absolutamente surpreendente. Veremos o que reserva o futuro, seria um enorme desperdício de esforço se não se continuasse com o projecto. As autárquicas estão aí, e nesse caso não será necessária a muleta dos partidos para qualquer candidatura.
O PAN é um raro caso de sucesso de um partido radical nos Açores. Sucesso moderado obviamente, mas chegou-se mesmo a temer a eleição de um deputado. Só consegue expressão porque não assume em período eleitoral a sua vertente mais radical, e a causa da defesa dos animais é facilmente abraçada. Defender que não se deve consumir leite porque isto causa o abate de bezerros é apenas um dos princípios que defende o PAN. Ora é de estranhar que numa terra onde a produção de leite é a principal actividade económica consiga ter espaço.
Manuel Moniz é uma mais valia em qualquer campanha. Pela alegria que traz à rua, pela comunicação fácil e pelas ideias disruptivas que tenta colocar na agenda. Algumas um pouco eleitoralistas ou de realismo duvidoso, no entanto, é uma voz necessária que enriquece a diversidade política do panorama regional. O resultado, neste caso, é o que menos interessa.
O PDA se não morreu nestas eleições atrevo-me a dizer que não morrerá nos próximos tempos. Rui Matos segue ferneticamente um caminho de eleitoralismo muitas vezes sem nexo. Recolhe algumas simpatias independentistas e pouco mais. O resultado só poderia ser um.
O PTP é um projecto que não entendo, nem percebo muito bem o que defende.
O PCTP-MRPP ganha o prémio coerência. Fiel aos seus princípios. Fazem falta mais partidos assim com a sua linha ideológica assumida e defendida. Mesmo que não se concorde fazem falta em todos os quadrantes. Aqui novamente o resultado é o que menos importa.
No Corvo mais uma vez elege-se o Dr. Paulo Estêvão. O reconhecimento pelo seu trabalho no parlamento em defesa da ilha eclipsou mesmo o próprio PSD que optou por não apresentar candidato neste círculo temendo que o PS consegui-se o pleno. Neste caso os únicos beneficiados são o Dr. Paulo Estêvão, a ilha do Corvo e a ALRA que não perde assim um parlamentar válido que trabalha. Fica provado também que não se ganham eleições regionais recorrendo a tácticas pontuais de apoio a quem mais convém no momento. Não é admissível para um partido como o PSD, que queria ser governo regional, não ter candidatos em todos os círculos eleitorais.
É um lugar comum dizer que os tempos que se avizinham serão desafiadores para estas nove ilhas plantadas no meio do Oceano Atlântico. A crise generalizada de Portugal e da Europa afecta já uma economia absolutamente dependente de transferências de verbas por parte de terceiros. O desafio por um lado reside em garantir que essas transferências não sejam significativamente diminuídas e por outro que a economia regional consiga inverter esse cenário de dependência crónica.
A aposta na continuidade, diz o bom senso, é sempre mais segura que uma mudança sem garantias de o ser realmente, e de o ser para melhor. O futuro dirá se estamos perante a confirmação da regra ou da honrosa excepção.
André Silveira