domingo, 11 de janeiro de 2015

Conto de Fadas


Era grande a expectativa em torno da apresentação do plano estratégico da SATA 2015-2020. Prometida para o final de 2014, acabou por se efectivar neste início de um 2015, já tarde e num ano onde o assunto turismo será da maior importância para os Açores. Por um lado por causa da muita aguardada  liberalização do espaço aéreo regional, por outro pela esperada resolução dos graves problemas financeiros da monopolista SATA, da qual dependeu toda a acessibilidade de passageiros à região nas últimas décadas, para o bem e para o mal. Maior parte das vezes para o mal, e com os resultados que se conhecem. Resultados esses que para os Açores causaram um péssimo desempenho do sector estratégico turismo. E resultados para a empresa que acaba 2014, embora sem se conhecerem contas provisórias do exercício, em graves dificuldades financeiras decorrentes de prejuízos acumulados resultantes de uma gestão essencialmente política com momentos surreais, e quase sempre ao serviço de interesses eleitoralistas alienados da realidade empresarial e do que são os desafios de uma companhia aérea regional no século XXI. A esse cenário já suficientemente complexo, juntam-se dois factores de extrema adversidade: Por um lado o exponencial aumento da concorrência na principal e mais lucrativa rota operada pela companhia - PDL - LX, e por outro a urgente necessidade de investimento na frota de médio curso que foi adiada até ao limite pondo em causa, pelo menos, a qualidade operacional com custos acrescidos de manutenção e perda de exploração, sem falar de danos irrecuperáveis no valor da marca junto dos mercados estratégicos agora reafirmados pelo plano estratégico. 

Dado este contexto, era natural a expectativa criada. Aguardavam-se respostas a uma série de perguntas que até ao momento não tinham uma explanação cabal e fundamentada. 
Por exemplo, como seria re-estruturada a empresa ao nível dos seus custos para que, mesmo com a perda de exploração prevista, passasse a ter uma sustentabilidade no curto e médio prazo. Ou, se haverá necessidade de re-capitalização, dado o valor da dívida e dadas as necessidades de investimento na frota. Ou então, e mais importante, qual o impacto para os Açores e para os Açorianos desse plano de reestruturação.

A primeira nota de surpresa com que me deparei na leitura do plano estratégico 2015-2020 prende-se com a quase ausência da análise financeira do histórico. Como que se quisesse passar uma esponja no passado recente da companhia. Se é verdade não constar nenhuma alusão às contas provisórias de 2014, também é verdade que quase não se faz qualquer comparação com os anos anteriores. Se tivermos em conta a tendência 2011-2013, temos duas questões de extrema relevância: Em 2013 os custos operacionais atingiram os 171 milhões de euros (apenas na SATA Internacional). Como vão conseguir, já em 2015, uma redução de mais de 30%, mesmo sabendo do recuo previsto da exploração? Na minha opinião, não é possível, mesmo que se tenha em conta os custos variáveis directamente ligados com a exploração que deverão certamente ser bem menores. Para tal, em 2015, muito contribuirá a redução do preço do combustível, partindo do princípio de que a tendência se manterá. Estamos a falar em cortar quase um terço dos custos. É um corte colossal e irreal. 
A segunda questão tem a ver com a previsão da quebra de exploração causada pela entrada das companhias low-cost e abandono de algumas operações. Mais uma vez aqui o optimismo delirante impera, mesmo porque o controlo desse factor nem depende da SATA. Depende sim, dada a força comercial e financeira desses concorrentes, da vontade das companhias que irão começar a operar em Março. Basta uma dessas operações correr acima das expectativas para um, ou mais, desses concorrentes aumentar a oferta de voos, e a SATA, em situação estratégica muito débil perder uma parte substancial da quota de mercado, e por consequência  uma perda de exploração significativa. 

Outra nota importante tem a ver com a reestruturação do dívida existente. Primeira conclusão decorrente desse assunto é a assunção de que não haverá qualquer crescimento dessa dívida no curto prazo, e que até haverá uma redução total, pasme-se, já no final de 2015 de cerca de 20 milhões de euros. Sendo que até será esse o ano com maior amortização da dívida em toda a duração do plano de negócios. Isso sem qualquer aumento de capital, ou pelo menos não é referido no plano. O que nos leva a outra omissão relevante. Não há qualquer previsão de re-capitalização da empresa. Embora esteja descrito, de modo até bastante pormenorizado, como será feita a re-estruturação da dívida, o que se prevê no imediato é uma redução da mesma sem qualquer entrada de capital que não seja resultante dos cash flows gerados previstos. Ora, esse é o principal corolário de um plano que apenas se pode classificar como um exercício académico de propaganda e que não passa de um conto de fadas. 

Opto por não comentar as opções do rebranding ou da aposta em Cabo Verde por achar que, apesar de erradas, não terão impacto significativo. Mas tenho de realçar que a opção de se deixar as rotas europeias como acertada e que só peca por tardia. 
Em relação à aposta estratégica no norte da América no mercado da diáspora (de novo…) não acredito que tenha potencial para um crescimento suficiente dado o grau de concorrência desse mercado.  Até porque a imagem da SATA junto dos nosso emigrantes não poderia ser pior e levará muito tempo a limpar o impacto causado por graves dificuldades operacionais, mesmo que consigam imediatamente, o que duvido, um nível aceitável de excelência operacional.

Para terminar e para recordar, uma nota para reflexão. Será possível mudar tanto em tão pouco tempo numa empresa pública que é dirigida há décadas pelos mesmos intervenientes? Existe algum caso comparável conhecido de sucesso? Eu, após alguma pesquisa posso afirmar que não conheço paralelo, e estou convencido que este plano encomendado certamente a uma consultora de renome, não passa de propaganda política que pretende apenas acalmar as hostes locais enquanto se prepara uma possível intervenção pública na empresa. Como já foi feito noutras companhias que tiveram de encarar os desafios que a SATA encara já no segundo trimestre do corrente ano. Não acredito que seja possível, sem haver aumento de capital e/ou de outra forma de capitalização em paralelo com um verdadeiro plano de re-estruturação. Uma real resolução do problema SATA Internacional. Até lá, que se continue a contar histórias bonitas aos Açorianos sem que a classe política seja capaz de mostrar as soluções com a coragem que deveria colocando o interesse dos Açores e dos Açorianos antes do eleitoralismo e da demagogia política. 

André Silveira