Primeiro que nada, e
depois de ler o texto de Frederico Cardigos publicado no seu blog Cardigoso,
fiquei com uma enorme vontade de voltar a mergulhar no Dollabarat, já que este
ano ainda não tive oportunidade para tal. No entanto, o ano passado fiz lá 10
mergulhos.
Sei bem que para
quem não mergulha ter uma real noção do que é o Dollabarat deve ser complicado.
Sou mergulhador há poucos anos e, confesso que antes de o ser tinha uma
perspectiva completamente diferente do que é a riqueza do mar dos Açores. Por isso,
fica o apelo prévio: Açorianos, tirem o curso de mergulho e mergulhem!
O Dollabarat é um local único no
mundo. No centro de mergulho que frequento, e com o qual colaboro,
frequentemente acompanho idas ao local. Gosto do entusiasmo do dia anterior, a
preparação e da viagem madrugadora. Pelo caminho somos normalmente brindados
por inúmeras surpresas. Golfinhos, baleias e tartarugas são frequentemente
avistados. Somos sempre acompanhados por aqueles que, para mim, deveriam ser o
símbolo dos Açores: os cagarros e seus voos rasantes. O turista mergulhador que
nos acompanha é, normalmente, um mergulhador experiente que já mergulhou em
vários locais do globo com centenas de mergulhos registados. Frequentemente
também, mergulhadores muito experientes com milhares de mergulhos registados,
que já mergulharam em quase todo lado visitam o local na busca do mergulho
perfeito. O que mais aprecio é ver a cara desses mergulhadores ao saírem da
água. Muitas vezes as expressões dizem tudo: uma satisfação enorme! Este grupo
restrito de mergulhadores ávidos e muito experientes, os “Costeaus” como lhes
chamamos, é unânime em afirmar que o recife Dollabarat é um local de mergulho
"World Class". Muitos mesmo afirmam ser o melhor mergulho da
sua vida. Isto enche-me de orgulho e vaidade, confesso.
O conjunto Dollabarat/Formigas é sem
dúvida um daqueles locais da terra onde a natureza beijou a perfeição. O nível
de visibilidade subaquática atingido é dos melhores do mundo. Recordo-me
perfeitamente do meu primeiro mergulho no local. Logo que chegámos e fundeámos,
o barco foi rodeado por um cardume de lírios. A visibilidade era tão boa que
podíamos apreciar todo o gigantesco cardume do barco no seu total esplendor. Só
por si uma experiência única. Disse-se por piada que nem era necessário
mergulhar. Já dentro de água pôde-se constatar que a pouco metros de
profundidade conseguia-se ver com uma clareza incrível o fundo, que naquele
local, no sopé da parede vertical que caracteriza o recife, está a 60 metros.
Na horizontal, um azul inebriante até perder de vista. Estima-se que a
visibilidade possa superar os 100 metros portanto. Para que se possa ter um
termo de comparação, digo que os Açores em geral têm visibilidades muito boas e
que no Verão junto à costa, em qualquer uma das ilhas, 20 metros de
visibilidade é considerada uma boa visibilidade. No continente 3 metros é o
normal... É frequente sentirem-se vertigens devido à transparência da água
"enganar" o nosso cérebro, que acredita estarmos a voar com apenas ar
entre nós e o fundo.
A paisagem
subaquática é sublime e muito representativa dos Açores. Costumo dizer que tem
um bocadinho de cada ilha, mas no entanto não conheço mais nenhum local
semelhante nos Açores que reúna tantas formações num único local. É único.
Existem disjunções prismáticas, paredes abruptas, pequenas cavernas, vales e
plataformas. Tudo isso povoado pela fauna outrora habitual em outros locais dos
Açores e que, agora, em muitos locais escasseia. Com a diferença de que, e
devido ao isolamento do local reforçado pela reserva natural, encontra-se de
tudo um pouco em grande quantidade e em tamanhos muito maiores. Meros enormes e
muito abundantes, e cardumes de jamantas são companhia habitual. Os grandes de
cardumes de pelágicos proporcionam espectáculos inesquecíveis . Volta e meia,
várias espécies de tubarões são avistadas sem que seja necessário recorrer a
engodo, sendo talvez o único local de mergulho dos Açores onde isso acontece. A
lista de fauna observada é demasiado extensa para ser toda descrita. A
diversidade observada é incrível.
Já tive o prazer de mergulhar em sete das
nove ilhas dos Açores. Já mergulhei no Mar Vermelho em locais off shore. Todas
as ilhas dos Açores têm excelentes locais de mergulho, sendo todas diferentes
em determinados aspectos. No Mar Vermelho a experiência com tubarões, recifes e
naufrágios foi fantástica. Mas nenhum outro local se aproxima sequer do
conjunto Formigas/Dollabarat. É realmente único e envolto numa mística
absolutamente esmagadora. Existe mesmo alguma cumplicidade entre aqueles que
pertencem ao clube dos que já lá mergulharam. Diria que é quase uma experiência
espiritual.
Não é portanto de estranhar que muitos dos
que se preocupam e querem conservar o local tenham posições apaixonadas acerca
do assunto. Incluo-me nesse grupo, sem qualquer preconceito em afirmar que sou
radicalmente pela conservação daquele santuário marinho. Acredito também que o passo mais
importante foi dado com a sua classificação como reserva natural. Mas também
tenho a convicção de que muito pode e deve ser feito. A preservação, se não
cuidada, não serve de muito.
Os problemas começam com a
prerrogativa que permite as artes de pesca ao atum em plena reserva natural.
Não que essa actividade extractiva possa afectar o equilíbrio daquele delicado
ecossistema. Até porque, as artes utilizadas nos Açores para o atum são
unanimemente apontadas como pouco destrutivas e permitem uma captura selectiva,
tendo mesmo sido atribuído à região um selo "dolphin safe".
No entanto, não é sequer possível pescar em cima das baixas, devido às
reduzidas profundidades, o que por si só torna perigosa a navegação. Pode-se no
entanto pescar na sua orla. Das vezes que observei embarcações dentro da
reserva a pescar, em nenhum caso estavam a pescar atum. Com todos os operadores
que falei nenhum me disse ter visto alguma vez embarcações a pescar atum dentro
da reserva em cima dos recifes. A experiência diz-me que quando é observada
alguma embarcação, esta está a pescar ilegalmente. Esta exceção dificulta em
muito a fiscalização, já que qualquer embarcação observada pode muito bem
justificar que estaria dentro da área protegida a pescar atum, desde que
licenciada para o efeito. Na minha opinião isto deveria acabar, dado que é
fácil perceber que ninguém pesca atum dentro da reserva, e conseguir-se-ia
facilitar a fiscalização. Por outro lado há uma questão de imagem e coerência.
É muito complicado explicar a um alemão, ou a um nórdico, que já mergulhou em
dezenas de reservas marinhas pelo mundo todo, que dentro daquela reserva
pode-se pescar. Eu já tentei e acho que não consegui.
Por outro lado, a fiscalização,
embora tenha sido intensificada no últimos anos, é, dado o isolamento do local
e a falta de recursos disponíveis, de difícil execução e manifestamente pouco
efectiva. Existem, porém, variados sistemas, com provas dadas em outros locais,
disponíveis para o fazerem de modo eficaz. Penso que faltou vontade para serem
implementados. Aqui acredito que com a evolução tecnológica se consiga chegar,
dentro em breve, a um sistema de vigilância definitivo. Sei também que se a
actividade comercial de mergulho crescer no local, pode ser o melhor
fiscalizador e dissuasor para a pesca ilegal.
É também verdade que, com o
aumento da fiscalização o número de embarcações alvo de coimas aumentou no
últimos anos. No entanto, muitas vezes essas coimas têm um poder muito
reduzido, já que acabam por nunca serem pagas, ou até em alguns casos
"perdoadas" ou comutadas em outras sanções mais leves. Não defendo um
aumento de valores de coimas, mas sim, em alternativa, um sistema de apreensão
temporária de embarcações. Mesmo que por períodos curtos de dias, seria muito
mais dissuasor que o sistema vigente. Podendo esses dias irem aumentando com a
gravidade e/ou reincidência.
Sei que a reserva natural dos Ilhéus
das Formigas, não é, nem de perto, nem de longe a zona dos Açores que necessita
de mais atenção, nem onde essa atenção é mais urgente. Muito já foi feito, e
bem feito. As sucessivas missões científicas ao local são prova disso mesmo.
Diria que é até um bom exemplo do que se pode ganhar com a implementação de
reservas. Espero sinceramente que o caminho da preservação deste local único
continue e que possa ser, no futuro, um exemplo de como um povo semi perdido no
meio do mar imenso conseguiu transformar extração em conservação, mas
conseguindo com isso acrescentar valor sócio-económico.
Recomendo a leitura do
livro de Eduardo Furtado, "O Mistério dos Ilhéus das Formigas"
Reportagem da RTP Açores sobre pesca ilegal dentro da reserva nacional
Reportagem da RTP Açores sobre pesca ilegal dentro da reserva nacional
