sexta-feira, 20 de julho de 2012

Formigas e Dollabarat - O Último Segredo do Atlântico


Primeiro que nada, e depois de ler o texto de Frederico Cardigos publicado no seu blog Cardigoso, fiquei com uma enorme vontade de voltar a mergulhar no Dollabarat, já que este ano ainda não tive oportunidade para tal. No entanto, o ano passado fiz lá 10 mergulhos.
 Sei bem que para quem não mergulha ter uma real noção do que é o Dollabarat deve ser complicado. Sou mergulhador há poucos anos e, confesso que antes de o ser tinha uma perspectiva completamente diferente do que é a riqueza do mar dos Açores. Por isso, fica o apelo prévio: Açorianos, tirem o curso de mergulho e mergulhem!

 O Dollabarat é um local único no mundo. No centro de mergulho que frequento, e com o qual colaboro, frequentemente acompanho idas ao local. Gosto do entusiasmo do dia anterior, a preparação e da viagem madrugadora. Pelo caminho somos normalmente brindados por inúmeras surpresas. Golfinhos, baleias e tartarugas são frequentemente avistados. Somos sempre acompanhados por aqueles que, para mim, deveriam ser o símbolo dos Açores: os cagarros e seus voos rasantes. O turista mergulhador que nos acompanha é, normalmente, um mergulhador experiente que já mergulhou em vários locais do globo com centenas de mergulhos registados. Frequentemente também, mergulhadores muito experientes com milhares de mergulhos registados, que já mergulharam em quase todo lado visitam o local na busca do mergulho perfeito. O que mais aprecio é ver a cara desses mergulhadores ao saírem da água. Muitas vezes as expressões dizem tudo: uma satisfação enorme! Este grupo restrito de mergulhadores ávidos e muito experientes, os “Costeaus” como lhes chamamos, é unânime em afirmar que o recife Dollabarat é um local de mergulho "World Class". Muitos mesmo afirmam ser o melhor mergulho da sua vida. Isto enche-me de orgulho e vaidade, confesso.

 O conjunto Dollabarat/Formigas é sem dúvida um daqueles locais da terra onde a natureza beijou a perfeição. O nível de visibilidade subaquática atingido é dos melhores do mundo. Recordo-me perfeitamente do meu primeiro mergulho no local. Logo que chegámos e fundeámos, o barco foi rodeado por um cardume de lírios. A visibilidade era tão boa que podíamos apreciar todo o gigantesco cardume do barco no seu total esplendor. Só por si uma experiência única. Disse-se por piada que nem era necessário mergulhar. Já dentro de água pôde-se constatar que a pouco metros de profundidade conseguia-se ver com uma clareza incrível o fundo, que naquele local, no sopé da parede vertical que caracteriza o recife, está a 60 metros.  Na horizontal, um azul inebriante até perder de vista. Estima-se que a visibilidade possa superar os 100 metros portanto. Para que se possa ter um termo de comparação, digo que os Açores em geral têm visibilidades muito boas e que no Verão junto à costa, em qualquer uma das ilhas, 20 metros de visibilidade é considerada uma boa visibilidade. No continente 3 metros é o normal... É frequente sentirem-se vertigens devido à transparência da água "enganar" o nosso cérebro, que acredita estarmos a voar com apenas ar entre nós e o fundo.

 A paisagem subaquática é sublime e muito representativa dos Açores. Costumo dizer que tem um bocadinho de cada ilha, mas no entanto não conheço mais nenhum local semelhante nos Açores que reúna tantas formações num único local. É único. Existem disjunções prismáticas, paredes abruptas, pequenas cavernas, vales e plataformas. Tudo isso povoado pela fauna outrora habitual em outros locais dos Açores e que, agora, em muitos locais escasseia. Com a diferença de que, e devido ao isolamento do local reforçado pela reserva natural, encontra-se de tudo um pouco em grande quantidade e em tamanhos muito maiores. Meros enormes e muito abundantes, e cardumes de jamantas são companhia habitual. Os grandes de cardumes de pelágicos proporcionam espectáculos inesquecíveis . Volta e meia, várias espécies de tubarões são avistadas sem que seja necessário recorrer a engodo, sendo talvez o único local de mergulho dos Açores onde isso acontece. A lista de fauna observada é demasiado extensa para ser toda descrita. A diversidade observada é incrível.

Já tive o prazer de mergulhar em sete das nove ilhas dos Açores. Já mergulhei no Mar Vermelho em locais off shore. Todas as ilhas dos Açores têm excelentes locais de mergulho, sendo todas diferentes em determinados aspectos. No Mar Vermelho a experiência com tubarões, recifes e naufrágios foi fantástica. Mas nenhum outro local se aproxima sequer do conjunto Formigas/Dollabarat. É realmente único e envolto numa mística absolutamente esmagadora. Existe mesmo alguma cumplicidade entre aqueles que pertencem ao clube dos que já lá mergulharam. Diria que é quase uma experiência espiritual.

Não é portanto de estranhar que muitos dos que se preocupam e querem conservar o local tenham posições apaixonadas acerca do assunto. Incluo-me nesse grupo, sem qualquer preconceito em afirmar que sou radicalmente pela conservação daquele santuário marinho. Acredito também que o passo mais importante foi dado com a sua classificação como reserva natural. Mas também tenho a convicção de que muito pode e deve ser feito. A preservação, se não cuidada, não serve de muito.

 Os problemas começam com a prerrogativa que permite as artes de pesca ao atum em plena reserva natural. Não que essa actividade extractiva possa afectar o equilíbrio daquele delicado ecossistema. Até porque, as artes utilizadas nos Açores para o atum são unanimemente apontadas como pouco destrutivas e permitem uma captura selectiva, tendo mesmo sido atribuído à região um selo "dolphin safe".  No entanto, não é sequer possível pescar em cima das baixas, devido às reduzidas profundidades, o que por si só torna perigosa a navegação. Pode-se no entanto pescar na sua orla. Das vezes que observei embarcações dentro da reserva a pescar, em nenhum caso estavam a pescar atum. Com todos os operadores que falei nenhum me disse ter visto alguma vez embarcações a pescar atum dentro da reserva em cima dos recifes. A experiência diz-me que quando é observada alguma embarcação, esta está a pescar ilegalmente. Esta exceção dificulta em muito a fiscalização, já que qualquer embarcação observada pode muito bem justificar que estaria dentro da área protegida a pescar atum, desde que licenciada para o efeito. Na minha opinião isto deveria acabar, dado que é fácil perceber que ninguém pesca atum dentro da reserva, e conseguir-se-ia facilitar a fiscalização. Por outro lado há uma questão de imagem e coerência. É muito complicado explicar a um alemão, ou a um nórdico, que já mergulhou em dezenas de reservas marinhas pelo mundo todo, que dentro daquela reserva pode-se pescar. Eu já tentei e acho que não consegui.

 Por outro lado, a fiscalização, embora tenha sido intensificada no últimos anos, é, dado o isolamento do local e a falta de recursos disponíveis, de difícil execução e manifestamente pouco efectiva. Existem, porém, variados sistemas, com provas dadas em outros locais, disponíveis para o fazerem de modo eficaz. Penso que faltou vontade para serem implementados. Aqui acredito que com a evolução tecnológica se consiga chegar, dentro em breve, a um sistema de vigilância definitivo. Sei também que se a actividade comercial de mergulho crescer no local, pode ser o melhor fiscalizador e dissuasor para a pesca ilegal.
 É também verdade que, com o aumento da fiscalização o número de embarcações alvo de coimas aumentou no últimos anos. No entanto, muitas vezes essas coimas têm um poder muito reduzido, já que acabam por nunca serem pagas, ou até em alguns casos "perdoadas" ou comutadas em outras sanções mais leves. Não defendo um aumento de valores de coimas, mas sim, em alternativa, um sistema de apreensão temporária de embarcações. Mesmo que por períodos curtos de dias, seria muito mais dissuasor que o sistema vigente. Podendo esses dias irem aumentando com a gravidade e/ou reincidência.

 Sei que a reserva natural dos Ilhéus das Formigas, não é, nem de perto, nem de longe a zona dos Açores que necessita de mais atenção, nem onde essa atenção é mais urgente. Muito já foi feito, e bem feito. As sucessivas missões científicas ao local são prova disso mesmo. Diria que é até um bom exemplo do que se pode ganhar com a implementação de reservas. Espero sinceramente que o caminho da preservação deste local único continue e que possa ser, no futuro, um exemplo de como um povo semi perdido no meio do mar imenso conseguiu transformar extração em conservação, mas conseguindo com isso acrescentar valor sócio-económico.

terça-feira, 15 de maio de 2012

A SATA É BURRA!

  Há alguns meses um movimento popular conseguiu que um vídeo, a denegrir a imagem do mergulho nos Açores, fosse retirado do site http://www.visitazores.com/. Foi um grande contributo para a promoção do turismo de mergulho nos Açores. Esse vídeo, já com alguns anos, mostrava uma série de técnicas e práticas muito reprováveis para o mergulhador informado, e que passavam uma imagem de amadorismo e falta de consciência ambiental. Uma péssima contribuição e uma ofensa para todos os mergulhadores e operadores de mergulho da região. 

  O vídeo foi prontamente substituído por um outro fantástico do Nuno Sá. Na altura essa acção foi aplaudida por todos. Nada como assumir o erro e corrigir prontamente.

  Dado isso, o que fez a SATA? Colocou recentemente o referido vídeo a passar nos seus aviões a promover o mergulho nos Açores, campanha paga pela região. Se isso não é burrice, é o quê?

http://youtu.be/OMUJWOlhg14

sábado, 5 de maio de 2012

Torre de Controlo III


  Temos de de fazer todos os esforços para minorar o isolamento das ilhas mais periféricas e com menos população. Mas, temos de entender que não é esbanjando dinheiro que se consegue atingir esse objectivo. A melhor maneira de se melhorarem as condições nessas ilhas, é promover a prosperidade da sua economia. Não há estado social sem crescimento económico ou prosperidade. O Corvo muito facilmente pode viver quase exclusivamente do turismo. Sendo uma ilha mais pequena, o impacto necessário para que isso aconteça é bem menor. Agora, é necessário que se façam investimentos nesse sentido. Não em vaidades. É preciso perceber que o turista que vai ao Corvo não valoriza as condições da gare, e muito menos da torre de controlo. Mesmo porque faz todo o sentido que o grosso da operação deva ser feita a partir das Flores via mar. No entanto Santa Cruz tem um porto minúsculo e um grande aeroporto, e o Corvo tem um moderníssimo aeroporto e um porto ridículo. Percebe-se onde falham as prioridades deste GRA? A falta de integração de políticas é por demais evidente, o que resulta nestes exemplos caricatos.

  Este exemplo é apenas isso, um exemplo, como também já foi aqui referido existem muitos outros, e provavelmente a maioria até em São Miguel. Nem quero que os corvinos pensem que a minha posição é contra eles, não é, bem pelo contrário. A lista de investimento despropositados é infindável, e todos os partidos têm responsabilidades, seja o GRA ou seja ao nível das autarquias, e em todas as ilhas. Só para referir alguns: Cais de Cruzeiros de Angra, Portas do Mar, Porto de Pesca da Povoação, Museus de Arte Contemporânea, Nonagons, Prolongamento da pista do aeroporto da Horta, Marina da Graciosa, entre outros. Basta somar o valor destes elefantes brancos.

  O que é imprescindível, é garantir que durante este período de campanha as pessoas não se deixem impressionar por promessas, mesmo porque não vai haver dinheiro para metade. Exijam sim investimento reprodutivo de riqueza, feito com bom senso. Não é altura para loucuras, ou até mesmo arriscar, é altura de centrar a nossa economia naquilo que poderá recuperar o crescimento. Porque sem crescimento, teremos aumento do deficit, perda de autonomia, mais desemprego e mais deterioração das condições de vida.


Torre de Controlo II

  Linda, a nova torre de controlo do aeroporto do Corvo. Melhorou claramente a qualidade de vida na ilha, e aumentou o emprego em 0%. Vai contribuir zero para o crescimento da economia da ilha. Vai levar mais zero turistas para a ilha. E custou aos aos Açores 600.000,00 €. Um grande investimento a pensar no futuro.   
  Mas claro, já a nova aerogare será muito diferente. Esta vai contribuir em zero para o emprego na ilha, vai trazer zero turistas à ilha, e vai contribuir em zero para o crescimento da economia da ilha. Vai custar aos Açores 500.000,00 €.
   Em todas as ilhas há exemplos de investimentos descabidos para a nossa realidade. E antes que me acusem ser anti Corvo (que não sou e até acho o investimento na ilha baixo), deixe-me dizer que São Miguel, até pela sua dimensão, é a ilha campeã em dinheiro esbanjado em tontearias e em outros parques tecnológicos.
  Interessa também falar sobre qual a principal via de entrada de turistas no Corvo. Ao que se sabe, o turismo de natureza tem crescido no Corvo, contribui já de forma significativa para a economia da ilha. Estes turistas, na sua maioria entram na ilha via marítima. Não seria muito mais prioritário melhorar o porto, que bem precisa, em vez de se investir numa torre de controlo e numa gare? Será porque os aeroportos são propriedade da SATA? Ou acham que os Corvinos são tontos? porque a obra do porto, bem a podem esquecer. Vão dizer que não há dinheiro
André Silveira

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"O Pacto Açoriano para a Criação de Emprego"

  Num texto intitulado "O Pacto Açoriano para a Criação de Emprego", não referir o sector do turismo como o mais forte potencial de criação de emprego, demonstra bem a opção política definida pelo Dr. Vasco Cordeiro.

   Refere-se à agricultura, que sem dúvida pode ser um sector gerador de postos de trabalho, mas que devido aos 16 anos de ausência de aposta, encontra-se fragilizada carecendo de uma reestruturação profunda. Reestruturação essa que podia, e deveria, ter sido efectuada por este GRA. Teve tempo e os recursos disponíveis . Optou no entanto pela aposta exclusiva na monocultura da vaca, com os resultados que se conhecem. A pecuária depende hoje cronicamente de subsidiação transversal a todo o sector. O fim das quotas será devastador para o sector.

  Em relação às pescas, é o próprio relatório do PS Açores que refere existirem pessoas, embarcações e licenças a mais na produção do sector. Não se prevê qualquer criação de emprego aí. A sugestão de aposta na transformação chega a ser irónica, já que todas as empresas públicas ligadas à transformação e comercialização de pescado, apresentam sérias dificuldades financeiras, e este GRA nunca conseguiu que fossem rentáveis ( Conservas Santa Catarina, Espada Pesca, etc). Será por aqui que o Dr. Vasco Cordeiro quererá criar emprego? Não creio ser possível.

http://www.psacores.org/opiniao/index.php?id_artigo=397

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A Nuvem I



   A virtualização da nossa vida não é propriamente uma novidade. A partir do momento em que começou a utilização dos meios de pagamento electrónicos, em 1985, iniciou-se esse processo de desmaterialização, primeiro do dinheiro, mas depois, também, de muitos outros elementos do nosso quotidiano. Pode-se dizer que Portugal não é uma referência, em geral, no que diz respeito à penetração de tecnologias na sociedade. No entanto, existem, pelo menos, duas honrosas excepções: os telemóveis e o multibanco. De facto, os portugueses aderiram de forma entusiasta ao "dinheiro de plástico", tonando-se numa referência mundial no que diz respeito a utilização desse meio de transacção de dinheiro. E, este foi o início da vaporização material de boa parte de tudo aquilo que até então era fisicamente palpável e presente à nossa volta.
   Esta evolução está à nossa volta em coisas simples, mas impõe-se também no que são os relacionamentos empresariais e sociais. O advento das redes sociais tem tido um impacto decisivo neste processo de desligamento físico de processos, sejam eles de interligação de instituições,[retira esta vírgula] ou de interações entre pessoas.
  Nas organizações, é hoje possível a quase completa virtualização de todos os aspectos de comunicação e fluxo de informação. Por exemplo, uma empresa pode não possuir qualquer infraestrutura de tecnologias de informação (TIC), não ter um único servidor informático, não existir um único documento físico. Pode até, nem possuir qualquer computador, isso se falarmos no que é tipicamente identificado como computador. Necessita apenas de um equipamento para acesso à Internet sem capacidade de armazenamento de dados. Toda a plataforma está fora do que são os limites físicos das instalações. Podemos dizer que tudo está na "Nuvem".

  Esta nova realidade potencia a aplicação de recursos e esforços naquilo que é a missão e visão da empresa. Deixando a gestão da sua plataforma TIC para empresas especialistas, que garantem capacidade de resposta e acabam por permitir que estas acedam a funcionalidades que decerto não lhes estariam disponíveis, caso a opção fosse gerir fisicamente a sua infraestrutura.

André Silveira

terça-feira, 3 de abril de 2012

A Arte da Política

  Arranjar maneira de que o TC chumbe os nossos investimentos, para os quais não temos dinheiro, para que possamos culpar alguém da nossa incompetência"